O Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) aponta que o Brasil tem mais de 10 milhões de pessoas surdas, equivalente a 5,1% da população. Desse universo, 2,7 milhões têm surdez profunda. Cada vez mais, a sociedade e, sobretudo, o público-alvo cobra que os responsáveis envolvidos cumpram o papel de produzir projetos audiovisuais e com a tradução de legendas direcionada para o universo em questão. E que, desta forma, façam valer a legislação nacional e estadual a fim de garantir a acessibilidade.

Com mais de duas décadas de experiência em tradução audiovisual, o tradutor e professor César Alarcón faz um panorama desse cenário e acrescenta que o mercado não se limita ao cinema, TV e plataformas de streaming. “A legislação se estende a eventos, como shows e teatros”, aponta.

Leia a seguir um bate-papo entre a CULT e o especialista.

CULT. Além de atuar há 20 anos como tradutor de audiovisual, principalmente para mostras e festivais de cinema, e ministrar aulas, você tem muita experiência na tradução para projetos voltados a surdos e ensurdecidos. Como anda esse segmento?

César Alarcón. No caso do Brasil, como em muitos outros países, a legislação garante a acessibilidade de surdos e ensurdecidos ao audiovisual. Até há bem pouco tempo, antes do início da pandemia, em fevereiro de 2020, eu atendia ao Teatro do Jockey, no Rio de Janeiro, onde a mesma peça apresentava a opção de legendas para surdos, que eram projetadas em tempo real por mim, enquanto outra equipe, de outra empresa, fazia a audiodescrição para cegos, e uma terceira empresa tinha profissionais que faziam a interpretação em Libras no palco.

CULT. Qual a abrangência desse mercado?

César Alarcón. Estamos falando de atender a uma demanda atual que está presente em todos os setores hoje em dia. Citei apenas este espaço de teatro, mas se falamos em mostra ou festival, você, enquanto produtor do evento, precisa estar aberto a esse público. Em função disso, essa demanda cresceu muito. Se ligarmos a TV hoje temos os canais por assinatura, além disso, plataformas como Netflix, Amazon, Disney, Globo Play. São muitas opções! Isso é só para termos uma ideia da necessidade de atender não só aos ouvintes com a tradução para legenda ou para dublagem, mas também aos surdos e ensurdecidos e aos cegos com a legenda para surdos e a audiodescrição. Então, essa questão da acessibilidade — porque estamos falando de uma tradução audiovisual que atende a acessibilidade — está muito em alta hoje. Quando falo em alta, não é questão de modismo…

CULT. É uma questão de necessidade e obrigação?

César Alarcón. Exatamente.

CULT. Hoje há profissionais preparados para atender à demanda no nível que o mercado necessita?

César Alarcón. Temos profissionais preparados, mas não são muitos. Talvez, o despreparo não seja dos profissionais tradutores, mas das próprias emissoras e eventos, que fazem isso só para cumprir a legislação. Outro dia, por exemplo, me pediram para traduzir um filme brasileiro para o inglês. Quando acabei o serviço, me falaram que agora queriam a tradução para surdos, só que queriam que fizesse apenas uma transcrição ao pé da letra de tudo que já havia sido feito. Precisei explicar que não poderia fazer isso, porque transcrição não atende ao público surdo. Para traduzir para o público surdo, há necessidade de colocar, por exemplo, os sons que o surdo naturalmente não consegue identificar.

CULT. Você tem formação em Libras?

César Alarcón. Não. Faço legendas para surdos e ensurdecidos. A tradução para Libras é outro departamento.

CULT. Então, você como tradutor desse público, não tem a necessidade de saber Libras?

César Alarcón. Não. Isso que você está falando é muito interessante, é muito importante também esclarecer… Porque muitos surdos de nascença vão se comunicar, logo desde o início, seja com a família ou com a sociedade, a partir da própria linguagem, que, no Brasil, é Libras. Portanto, não vão passar pelos mesmos estudos [de linguagem] que nós, ouvintes, passamos. Mas se porventura “passarmos” a ter a deficiência auditiva em algum momento da vida, seremos considerados ensurdecidos. Por isso, se chama legenda para surdos e ensurdecidos (LSE). Esses ensurdecidos não são necessariamente surdos de nascença: como já passaram pela educação básica, vão ter uma ideia de leitura [mais próxima do ouvinte]. Então, na hora de confeccionar a tradução para legenda, o ensurdecido vai ter uma facilidade maior de compreender que o surdo não tem.

CULT. Pode ser feita uma mesma legenda para esses dois públicos?

César Alarcón. Muitas vezes, a legenda feita para o ensurdecido não funciona para o surdo, por isso, ele precisa de Libras. Portanto, são dois públicos de surdos, e as nossas legendas [as do tradutor audiovisual] para surdos não necessariamente atendem esses dois públicos. Daí a necessidade de Libras e das legendas para surdos.

CULT. Esse profissional que desenvolve as legendas para surdos e ensurdecidos precisa desenvolver uma técnica especifica também?

César Alarcón. Sim; porque não deixa de ser uma nova linguagem que toma como base a legenda. Então, se você quer investir nesta área de confecção de legenda para surdos e ensurdecidos (LSE), é fundamental ter uma base de legendagem. Onde busco isso? Em cursos profissionalizantes, em universidades que me deem esse tipo de suporte ou cursos de curta e média duração, que me apresentem esse know-how, essas técnicas, que não são tão difíceis. Muitas vezes há uma ideia equivocada de que quem faz legendas para surdos e ensurdecidos atua ao vivo. Não é o caso. As legendas ao vivo são feitas por profissionais que usam uma máquina específica, como uma máquina de escrever das antigas, que é outro serviço.

CULT. Como funciona na prática o trabalho do tradutor para legendas de surdos e ensurdecidos?

César Alarcón. Primeiro, enquanto tradutor é preciso se colocar no lugar desse público e tentar entender quais sons deveriam ser representativos, relevantes para ele, que deveriam entender. Não confundir os sons com as cenas que ele está vendo. Portanto, não é uma descrição da cena que você precisa traduzir. Por exemplo, se existe uma cena que a água está caindo da torneira, não posso colocar que fulano abre a torneira. Isso é audiodescrição; é para o cego. Para o surdo, não pode ser isso, porque ele já está vendo a cena. Para o surdo, é preciso fazer a descrição do som. São pequenos detalhes que se trabalham nos cursos para que o aluno não confunda.

 

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